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Blog para divulgação de artigos e textos jornalísticos que transgridam o conceito do jornalismo online.

Name: Roger Marzochi

Wednesday, May 28, 2008

A santíssima trindade

Cruzei a Paulista pela Joaquim Eugênio de Lima. 23h40. Entre as nuvens baixas, ainda conseguia ver a lua ao fundo da névoa escura, que havia se esvaído em uma forte chuva. A caminho da “Prainha”, como é conhecida a esquina repleta de bares com mesas na calçada, na diagonal do prédio da Gazeta, eu revi a minha vida em flashes, no mesmo ritmo das imagens das placas de publicidade luminosa que ora preenchia o céu da Paulista, e já não poluem mais a cidade. Lembrei de quando conheci a avenida pela primeira vez, aos 16 anos, quando visitei uma tia. Recordava da sensação de seguir por ruas que me pareciam muito mais amplas à época, para além da comparação com as ruas de Americana, minha cidade. A sensação de ver o Masp, como que flutuando entre suas colunas, e muitas e muitas outras ruas, que não constavam no meu mapa de orientação espacial mental, prometiam-me o inesperado. Quanta coisa eu vivi em 34 anos. Pouco, ou muito, não importa medir isso em tempo, mas em intensidade. Quanto esforço, e quantos sonhos foram conquistados para depois dar espaço para novos sonhos, ou para a vaga traiçoeira dos desencantos. E, naquele momento, meus olhos choveram carregados por um amor que eu mal podia imaginar que um dia me seria permitido. Eu estava, definitivamente, caminhando sozinho até um bar para comemorar a vinda de Vinícius, meu filho cujo nascimento eu acabara de assistir. Já com um copo na mão, explodindo de alegria e encanto, buscando explicações para o inefável, relembrava minha vida toda e agradecia todos os que cruzaram meu caminho até aquele momento e que, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, ajudaram-me a alcançar o que considero o ápice da felicidade.

E contraditoriamente, justo alí, na mesma “Prainha”, eu havia tido o primeiro contato com a loucura explícita de São Paulo, quando comecei a morar aqui, em 1997. Um rapaz fazia pirofagia nessa mesma esquina, num sábado à tarde, para impressionar os clientes dos bares da distinta “Prainha”. Ignorando o trânsito, colocou-se no meio da rua para sua apresentação. Mas enquanto cuspia fogo, um ônibus teve que frear bruscamente para não atropelar o nosso “boitatá” do asfalto. Talvez pelo susto, pelo fogo, ou um conjunto de salário baixo, irritação e embrutecimento, o motorista desceu do coletivo e, sem pestanejar, golpeou uma, duas, três, quatro vezes as narinas fumegantes do pobre homem, que foi à lona quadriculada da calçada. Vitorioso na luta, o motorista seguiu viagem, como um bandeirante que abre espaço na mata rumo ao desenvolvimento. Mas o pirofagista se ergueu, nariz em sangue, e resignado foi até os clientes dos bares pedir dinheiro. O espetáculo tem que continuar.
Agradeci no mesmo instante o pirofagista, cuja ousadia me fez sintetizar a minha experiência em São Paulo, e na vida. Muitas vezes o jornalismo, profissão na qual mergulhei durante o processo de impeachment de Fernando Collor, é similar ao trabalho (ou a falta de trabalho) de nosso amigo circense. Precisa parar o trânsito, arriscar os lábios e o corpo no fogo, ir à lona por subverter o que é considerado ordem “natural” das coisas e se reerguer para sobreviver na sua arte, com ou sem ousadia, mas sobreviver. Da mesma forma, é preciso amar e se doar quantas vezes for necessário apesar do risco de ser nocauteado pelas circunstâncias.

E eu já havia sido derrubado uma porção de vezes! E estava, então, ganhando um prêmio inacreditável em todas as esferas da vida, que me encheu de orgulho, de carinho e de sensação de realização plena. Entre estourar a bolsa e o nascimento do bebê a adrenalina era tão grande que só me permitia agir e rezar. Agora, olhando minha esposa Adriana Costa, ainda não dá para acreditar que conquistamos um momento como esse. Ao chegar até a mesa dela, num bar de Americana naquele 21 de abril de 2004, eu estava leve apesar dos quase 100 quilos, querendo me permitir a amar novamente. E trocando sorrisos, olhares e conversa, senti que sem querer estava diante de uma mulher muito especial. E veio a amizade, o amor, o namoro e, agora, o Vinícius, que me surpreende a cada dia, a cada fase da sua experiência. Ser pai ampliou minha percepção enquanto filho de vários pais, unificou minha consciência de família, para que eu possa dar à paternidade o seu exato sentido naquilo que considero a essência da santíssima trindade: pai, filho e o espírito santo daquela que deu sentido ao roteiro de nossas vidas.

1 Comments:

Anonymous Léo Haberli said...

Belo texto!!

3/31/2009  

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