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Blog para divulgação de artigos e textos jornalísticos que transgridam o conceito do jornalismo online.

Name: Roger Marzochi

Thursday, December 10, 2009

Em defesa da experiência viva da música na escola


Imagine-se num cruzamento de madrugada, ouvindo ao fundo o pulsar distante dos motores de carros, abafados pelo silêncio da noite, entrecortados pelo som mais nítido do temporizador do farol da esquina. Depois, com esse ritmo, componha a sua própria música com o que precisa comunicar. É esse despertar da sensibilidade musical em crianças e adolescentes que tem sido o desafio da vida de Keith Swanwick, educador emérito do Instituto de Educação da Universidade de Londres, que esteve em São Paulo para participar do III Seminário da Associação Amigos do Projeto Guri, que de 19 a 21 de novembro reuniu cerca de 500 educadores para a discussão dos desafios dos projetos culturais. O Guri ensina gratuitamente música a 40 mil crianças e adolescentes do Estado.

Com base nas ideias de Piaget, ele desenvolveu a sua "Teoria Espiral do Desenvolvimento Musical" após estudar um grupo de alunos de escolas em Londres, dividindo a aprendizagem em quatro níveis relacionados tanto à idade do aluno quanto ao valor simbólico da música. Foi a partir dessa teoria que ele criou o método "Técnica, Execução, Composição, Literatura e Apreciação" (T.E.C.L.A), que foge ao sistema tradicional ao evitar a abordagem do aluno pelo ensino de um instrumento, pela leitura de partituras, que muitas vezes mais afastam do que aproximam as crianças da música. "A música está fechada em si mesma. O desafio do professor é fazer a aproximação. É evitar o uso dos rótulos", diz o educador, em entrevista à Agência Estado. "O trabalho do professor é evitar que a música se sedimente nas crianças como o concreto, o cimento, que se torne fixa."

Qual a importância da educação musical?
KEITH SWANWICK - Cada cultura tem a sua língua, e cada grupo, a sua música. Pode ser música religiosa ou de rituais. A música está em todo o lugar. A função da educação musical consiste em despertar a atenção das pessoas para essa música e trazê-la da origem do seu contexto para o primeiro plano. A música é muito importante não apenas pelo prazer em se ouvir, mas por permitir "insights" de sentimentos que não obteríamos de outra forma.

Como o professor pode estimular as crianças a desenvolverem a sua própria música? No Brasil, por exemplo, temos o samba. Seria essa a música que ajudaria no desenvolvimento, por ser parte direta da cultura do País?
SWANWICK - Há música em toda parte. Há música nas ruas, na mídia, na TV. Algumas são diretas, específicas, como o samba. Mas outras estão no "background", dentro de um contexto no qual não estamos prestando atenção. E o trabalho da educação musical é trazer a música desse pano de fundo, desse 'background', para o primeiro plano. E fazer isso é começar pelo tipo de música que o estudante já possui. Todos nós possuímos essa música. Localizá-la é muito importante para dar ao estudante a oportunidade de se expressar.

Como fazer isso?
SWANWICK - O que fazemos é a forma natural de se fazer música, evitando confinar o estudante à partitura. Isso pode causar um tipo de bloqueio e não é a melhor forma de abordagem. Eu apresento uma música e digo: 'trabalhem com esses sons em grupos. Não o reproduzam simplesmente, mas trabalhem com eles. Mude a velocidade, use a parte que quiser, joga o resto fora.' O aluno decide o que fazer. Ao dar a chance de construir música, eles podem trazer a música que já possuem em suas mentes. E ao aprender a compor estão aprendendo a se comunicar musicalmente. O professor é o facilitador desse processo.

Algumas escolas ainda obrigam os alunos a aprenderem um instrumento. Isso é correto?
SWANWICK - Na Inglaterra, nós temos uma nova política em que cada criança deve ter a oportunidade de tocar um instrumento. E isso é interpretado da forma mais rígida à mais flexível. A primeira é: toda criança toca flauta, o que é horrível. Em workshops que supervisionei uns trazem violino e trompete; outros, instrumentos simples. E eles misturaram os sons. E eu os estimulo a tocarem não com partitura, mas a partir de imagens. Por exemplo, uma imagem do fogo, seguido de uma floresta, e finalizando num céu com apenas uma nuvem. Cada uma dessas imagens tem uma estrutura e trabalhamos qual o som de cada uma e como fazer a transição entre elas.

Os professores no Brasil têm habilidade para desenvolver esse tipo de ensino?
SWANWICK - Claro que sim. Mas depende da bagagem do professor e do método. Porque o antigo é assim: você dá para a criança um instrumento, e a apresenta uma partitura, sem o estimular a crianças. É uma experiência terrível e a maioria odeia e desiste. Há várias formas de aproximar a criança da música e uma delas é não dar lições individuais. E eles aprendem uns com os outros. Se uma criança toca no tempo certo, outra também tocará. É mais fácil ela aprender com outra criança que com um adulto. Se ela vir seu amigo tocando, vai pensar 'porque eu não posso fazer isso se ele faz?' O grupo é parte importante do processo.

Em seu livro "Ensinando Música Musicalmente", o sr discute que, apesar de a música ter um contexto particular, referindo-se ao tempo e ao universo de quem a criou e por que classe ela é apreciada, há ainda um "contexto musical", no qual o indivíduo pode não conhecer a história de quem a compôs, ou não pertencer ao "grupo sonoro" que o aprecia, mas consegue percebê-la. Como fazer essa transcendência?
SWANWICK - Musica é uma atividade social. Certo! Música é criada em um contexto social. Certo! Mas música não é simplesmente determinada pela situação em que é feita. Se você pensa nesses termos, você não poderia apreciar música de outras culturas ou de outros séculos. A menos que o processo possua alguma autonomia, não completa, mas que se possa se libertar do contexto local.

Aí entra a educação? Porque, parece-me que a música se transformou em algo como o futebol, com uma função de catarse social...
SWANWICK - Você acha o mesmo numa discoteca. A anestesia do ruído e das luzes e das drogas e se esquece dos problemas.

É claro que, muitas vezes, é importante essa anestesia causa pela música...
SWANWICK - Sim, mas não dentro da escola! (risos) Não faria parte de um programa governamental.

Mas é que a música parece ter perdido um pouco sua capacidade de mudança, de reflexão.
SWANWICK - Hoje a música está fechada em si mesma. A dificuldade do professor é fazer a aproximação. E a minha não é dizer, 'vamos aprender a música de um famoso compositor alemão morto...' O que eu faço é um convite para tocarmos certos ritmos juntos. É evitar o uso dos rótulos culturais, mas focar no processo. O trabalho do professor é evitar que a música se sedimente nas crianças como o concreto, o cimento. Se torne fixa. Porque depois de uma certa idade, ficam fixas. O desafio é trabalhar para evitar isso.

Como você avalia o trabalho com música para crianças infratoras. Ajuda a reintegrá-las à sociedade?
SWANWICK - Não é 100%. Só podemos tentar. Muitos dos problemas dessas crianças é que elas não respeitam outras pessoas, porque também não se respeitam. E não se respeitam porque falharam por algum motivo. E buscam uma chance de obter sucesso. Música é uma possibilidade para algumas, não para todas, terem sucesso. Não no sentido de ficarem milionárias, mas se realizarem socialmente. A música é, simplesmente, uma das possibilidades.

(Roger Marzochi/AE – Foto de divulgação feita por Rodrigo Rubira, do Projeto Guri)

Saturday, October 17, 2009

A celebração dos 20 anos de uma parceria singular


Um samba, que não é samba. Um rock, que não é rock. Essa dificuldade em se definir a que gênero pertence grande parte da música que continua a fluir do movimento “Vanguarda Paulista”, dos fins dos anos 80 até hoje, não é exclusividade dos críticos. “Minha música é tudo o que não é”, diz categoricamente a cantora Alzira Espíndola, sem o franzir da testa daqueles que procuram, desesperadamente, apenas catalogar. “A música que tem um rótulo, às vezes, é tão bem feita dentro da sua proposta, que tem que tirar o chapéu. Essa coisa mais de produção de massa é difícil de lidar. Eu não sei, decididamente. Gosto de ser singular e de ter, pelo menos no material, o meu campo onde eu posso cuidar. Cada um está aí para o seu talento.”

E é nessa singularidade que o movimento, até hoje, obtém seu sucesso, independentemente da venda de discos. Prova disso poderá ser experimentada pelo público de Curitiba, que no sábado (17/10), receberá Alzira e a poetisa Alice Ruiz, sua parceira há 20 anos, no show do disco “Paralelas”, no Teatro Paiol. O disco foi lançado em 2005, pela Duncan Discos, da cantora Zélia Duncan, e vendeu uns dois mil exemplares, conta Alice, que está feliz por apresentar, finalmente, o seu trabalho ao vivo para o público da sua cidade natal. E, também, comemorando a vitória de seu segundo prêmio literário. Em setembro, ela venceu o Prêmio Jaboti de Poesia, com o livro “Dois em Um”, com toda sua poesia publicada na década de 80. O primeiro prêmio Jaboti foi com “Vice Versos”, em 1989.

“A gente faz uma música que tem certo compromisso com o novo, com certa ruptura. Tem esse feeling de Vanguarda Paulistana. Ambas fomos parceiras do Itamar Assumpção. É um tipo de música que não se não toca muito no rádio e o fato de ter poemas no disco, talvez, cause estranhamento”, comenta Alice, que também não tem por que se preocupar. Primeiro, porque suas poesias, declamadas na música, ou interpretadas por Alzira, Zélia Duncan, Arnaldo Antunes, Cássia Eller e Zeca Baleiro, Dona Zica, entre outros, ganharam seus espaço dentro ou fora da grande mídia. E, além disso, ela não tem tempo para checar a quantas anda cada uma de suas produções. Está sempre viajando, dando palestras sobre haikais, uma de suas grandes paixões. Além do prêmio literário, está também preparando outros livros. E sua filha, Estrela Ruiz Leminski, caminha nos mesmos passos na poesia e na música, e também participa do show, ao lado das convidadas Rogéria Holtz e Luciana Worms.

Comida é arte – Alice espera também levar o show para Campo Grande, terra natal de Alzira. Para que o show seguisse até Curitiba, foi preciso uma grande dedicação da produtora Tatjane Garcia, que correu atrás de patrocínio, batizando o projeto de “Para Elas”. “Quando a Alice ganhou o segundo Prêmio o projeto ‘Para Elas’ já estava aprovado. Mas o primeiro Jabuti contribuiu na aprovação. Coloquei esse nome porque tem uma música no CD com este título, mas o projeto é para o lançamento do CD Paralelas e a comemoração dos 20 anos de parceria da Alice e da Alzira, que se conheceram em 1989”, diz Tatjane, que conseguiu recursos para o show com a ajuda principal da Eletrosul Centrais Elétricas e da Itaipu Binacional, entre outros.

Segundo a produtora, o show também terá o objetivo de levar cultura a duas comunidades quilombolas do Estado. A entrada para o evento será um livro, usado ou novo. Romance, ficção, pode tudo, menos livro didático. “Essas comunidades passam necessidade, mas sempre estão recebendo alimentos. Mas eles também têm outro tipo de fome”, diz Tatjane. Os livros serão enviados para as Comunidades “Paiol de Telha”, em Guarapuaba; e comunidade de “João Sura”, no município de Adrianópolis. (Roger Marzochi/AE)

Monday, October 05, 2009

Em homenagem ao jazz e à música erudita

O maestro João Carlos Martins se apresentou na sexta-feira (02/10) com Dave e Chris Brubeck e a Orquestra Bachiana. Como portfólio do meu trabalho, coloco aqui a matéria completa, divulgada em julho. As fotos são de divulgação, cedidas pelo maestro, exceto as imagens da capa da revista Time e da capa do disco Time Out.


Família Brubeck sob a regência de um brasileiro

Ele não para. De pé, ouvindo "Brandenburg Gate", composta por Dave Brubeck em homenagem a Johann Sebastian Bach, ele fecha os olhos, balança o corpo num vaivém como o de um metrônomo e, com os braços, circunda no ar os compassos com a ponta dos dedos. Quem não o conhece, poderia supor que ele é mais um dos inúmeros fãs do celebrado músico americano. Mas este admirador especial é o maestro e pianista clássico João Carlos Martins, que está no escritório de sua cobertura, em São Paulo, aproveitando ao máximo o tempo para decorar todos os movimentos de seis obras que regerá com a sua Orquestra Bachiana e seu amigo Dave, no dia 2 de outubro, no Avery Fisher Hall at Lincon Center, em Nova York.

"É grande a responsabilidade. E eu tenho que decorar tudo, porque não posso virar a página da partitura", diz, relembrando seu desafio. Devido a acidentes e fatalidades, perdeu a mobilidade dos dedos para o piano. Passou ainda por sucessivas e dolorosas experiências, tanto envolvendo a música como na política. Mas voltou a tocar piano com dois dedos na mão direita, três na esquerda, e ao receber o diagnóstico definitivo dos médicos, decidiu virar maestro, num exemplo de superação pela música, apesar da impossibilidade de folhear as páginas de partitura e manter a batuta em punho. No final do mês, lançará seu novo disco, "Páginas de uma história", que mescla a narrativa de sua história à música. Este mês, esteve em Wilton, Connecticut (EUA), na casa da família Brubeck para ensaiar e acertar os detalhes das apresentações.

A amizade entre Brubeck e Martins teve início em 1970, quando o pianista brasileiro, no auge da sua carreira, reconhecido internacionalmente como o maior interprete de Bach, fazia um recital no Anchorage Festival, no Alasca. "O que nós ouvimos foi impressionante", relembra Dave, na contracapa do convite do show. "Era Bach na forma que eu imaginava que deveria ser executado. Um dos meus filhos adolescentes disse a João: 'Quando você toca Bach, isso soa muito como jazz'. 'Não', disse Martins. 'Você quer dizer que jazz soa muito como Bach'."

Influência - Martins, que iniciou sua carreira clássica nacional aos 13 anos, e a internacional aos 18, ouvia as músicas de Dave através do piano do carioca Dick Farney (1921-1987). "Quando eu tinha uns 14 anos, morava na Avenida Santo Amaro, descia umas oito quadras para ver um pianista brasileiro de jazz fantástico chamado Dick Farney. Achava fantástico como a improvisação de um pianista de jazz tem tudo a ver com Bach e as improvisações dele no século XVIII. Nunca tive jeito para o jazz, mas admirava. E o Dick dizia para mim: 'o maior gênio na história do jazz chama-se Dave Brubeck'. E ele tocava as músicas dele para mim. Até que eu aprendi uma música dele, 'Thank You', em homenagem a Chopin."

No concerto de Anchorage, quando ficou sabendo pelo diretor do festival que a família Brubeck estava na plateia, Martins tocou duas composições suas, "Thank You" e "Blue Rondo". A primeira será tocada por Brubeck e Martins em outubro, juntos ao piano.


Sete notas musicais, sete pianos entre Dave e Martins


Sete pianos colocam na linha do tempo a vida de Dave Brubeck e João Carlos Martins. Dave Warren Brubeck queria ser caubói como o pai, estudou até veterinária, mas partiu para a música, revolucionando as estruturas e os acordes do jazz com "Time Out". Quando Dave deixou o clássico "The Brubeck Quartet", em 1967, buscou ficar mais tempo em casa para criar os filhos, ensiná-los a tocar. Lá compôs cerca de 500 peças, compondo oratórios, músicas sacras, sinfonias e até música para balé. A intensa produção e o desejo de ensinar música aos filhos fizeram com que casa de Dave se transformasse num verdadeiro estúdio, contando com sete pianos, e muitas partituras espalhadas.

Nascido em 1940, João Carlos Martins teve contato com o piano após ganhar um de presente do pai, que queria animá-lo após uma cirurgia no pescoço, quando tinha seis anos. Os outros três irmãos também gostaram, e a casa também chegou a ter sete pianos. Aos 11 anos, João estudava seis horas diárias e, assim como Brubeck, criou um estilo próprio de interpretar as obras de Bach, gravando a obra completa do mestre.

Aos 20 anos, estreou no Carnegie Hall com o patrocínio de Eleanor Roosevelt. O sucesso não demorou a alçá-lo à condição de maior interprete de Bach e de ser comparado ao canadense Glenn Gould. "A primeira vez que eu o ouvi, no início dos anos 60, ele tocava como um possesso... totalmente possesso. O que eu senti ao ouvi-lo foi algo comparado ao enternecimento de uma mulher, creio, na hora do parto", conta o empresário Jay Hoffman, em entrevista ao documentário alemão sobre a vida do pianista "A paixão segundo Martins", de Irene Langmann, vencedor de quatro festivais internacional em 2004.


Chris Brubeck
"Há uma geração que acha que a música de Kenny G é jazz"


Ao deixar "The Dave Brubeck Quartet" em 1967, Dave Brubeck investiu em sua carreira unindo seus filhos ao seu redor. Chris Brubeck, 57 anos, é um dos quatro filhos de Dave que abraçaram o ofício do pai, e hoje viaja pelo mundo tocando jazz com o seu "Brubeck Brothers Quartet", com seu irmão Daniel. O próprio Chris integrou o "The Dave Brubeck Quartet". Como compositor, é destacado por seus arranjos para orquestra. O contato com a música era inevitável, mesmo porque Dave compôs "Crazy Chris", música inspirada pelo nascimento do filho. Na entrevista, ele conta sobre sua experiência familiar, música e os desafios para o jazz hoje. Nos dias 13 e 15 de agosto, Chris Brubeck estará em São Paulo , apresentando-se no teatro do CIEE, no Itaim Bibi, onde tocará com a Orquestra Bachiana o seu primeiro "Concerto for Bass Trombone and Orchestra", do disco "Bach to Brubeck", gravado com a The London Symphony Orchestra. "E falando de Bach, a primeira faixa do CD traz dois famosos prelúdios de Bach com arranjos que eu fiz para orquestra", explica Chris, em entrevista por e-mail.

Como seu pai te apresentou ao mundo da música?
Eu cresci ouvindo a música de meu pai em toda a parte da casa quando eu era criança. Em termos de "aulas" formais ele realmente não era meu professor pelo simples fato de estar em turnês a maior parte do tempo. Entretanto, eu aprendi muito com ele ouvindo seus ensaios com talentosos músicos como Paul Desmond, Joe Morello, Eugene Wright e Gerry Mulligan. Mais tarde, eu toquei com todos eles o que foi realmente algo muito gratificante. Eu também toquei baixo elétrico fretless e trombone baixo no quarteto de Dave por mais de uma década. Fazer concertos ao redor do mundo com músicos de jazz destacados é a melhor "aula" de música que você possa imaginar.

Como a música ajudou a manter a família Brubeck unida?
Após Dave deixar o "Quarteto Clássico", com Paul, Gene and Joe, ele formou um grupo chamado "The New Brubeck Quartet". Nos anos 70, eu e meus irmãos (Darius no teclado e Dan na bateria) tocamos com Dave em muitos lugares no mundo e foi um tremendo sucesso no famoso Festival de Jazz de Montreaux, na Suíça. Fizemos 2 LPs pela Atlantic Records - "Two Generations of Brebeck" e "Brother The Great Spirit Made Us All". Nos reunimos ocasionalmente com meu irmão mais novo, Mattew, que toca violoncelo. Esta "banda familiar" fez concertos com a Orquestra Sinfônica de Londres. Dan e eu temos um grupo chamado "The Brubeck Brothers Quartet", com Mike DeMicco na guitarra e Chuck Lamb no piano e tocamos em grandes festivais como Detroit e Newport. Às vezes, fazemos jams com o quarteto atual de Dave.


Quando você se decidiu em ser um músico?
Quando eu tinha 5 anos. Eu queria aprender contrabaixo, o que era muito grande para mim. Eu costumava ficar embaixo do piano, próximo de onde estava guardado o contrabaixo acústico de Gene Wright e eu o tocava ali enquanto estava deitado no chão. Dave insistiu para que eu começasse com o piano, para que eu pudesse aprender como ler e escrever ambas as claves.


Como é fazer música clássica e jazz?
Quando eu estou escrevendo uma partitura para orquestra, existem muitos detalhes para se pensar, para criar a música, o que é formidável. E é emocionante quando você escuta o resultado final com a orquestra. Quando eu faço uma apresentação de jazz é um alívio não ter nada que escrever. Os músicos podem usar suas habilidades para improvisar e criar a igualmente válida, mas diferente, música. Eu gosto de unir jazzistas e músicos clássicos. Por exemplo, no último CD do Brubeck Brothers, "Classified", nós gravamos uma música chamada "Vignettes for Nonet", com o nosso grupo de jazz e um quinteto de sopro com instrumentos de madeira. Nós também fazemos concertos com orquestras o que combina com a liberdade da improvisação com a disciplina da música clássica. Eu amo ambos os gêneros de música e cada uma fornece alívio e contraste ao outro.

Em agosto, você se apresentará em São Paulo com a Orquestra Bachiana. É sua primeira visita ao Brasil? Qual sua expectativa para o show?
Eu fiz um tour pelo Brasil nos anos 70, como havia mencionado. Foi uma experiência fantástica. Eu percebi que o brasileiro é, em geral, muito mais musical do que o americano. Eu vou tocar aí meu primeiro "Concerto for Bass Trombone and Orchestra", gravado com a The London Symphony Orchestra, do disco "Bach to Brubeck". E falando de Bach, a primeira faixa traz dois famosos prelúdios de Bach com arranjos que eu fiz para orquestra. O maestro João Carlos Martins adora a forma como eu fiz o arranjo, e o tocaremos com a Orquestra Bachiana. E ele já o executou esse arranjo no Carnegie Hall, o que foi uma grande honra.

Qual a sua opinião sobre o caminho que o jazz tomou? Wynton Marsalis, por exemplo, continua ousando e fazendo novos sons com a forma antiga de se fazer jazz. Qual é o principal desafio do jazz hoje?
Eu profundamente respeito aquilo que você se refere a "forma antiga de fazer jazz"... baseado na improvisação em cima das mudanças de acordes que se repetem dentro de uma estrutura. É o que Dave faz como compositor de jazz e o que a maioria dos meus amigos músicos tem feito: improvisar bem em cima de acordes. Aliás, é o que Bach fazia. Ás vezes, eu fico cansado em repetir as estruturas e gosto de experimentar novas formas, na maioria das vezes, por meio da música clássica. Até em temas tradicionais há recapitulações. É parte da criatividade que o compositor utiliza para fazer a melhor arquitetura para conquistar os ouvintes.

Esse é o grande desafio do jazz?
O grande desafio do jazz, ao menos na América, é manter os admiradores que apreciam o que os músicos e compositores estão fazendo. Jazz é um "guarda-chuva" que cabe muita coisa e agora há uma geração que acha que a música de Kenny G é jazz. Esse gênero é o que mais vende. No meu caso, eu tenho esperança em tocar para pessoas que apreciem música clássica e jazz movidas por minha experiência única como músico, compositor e ser humano.


Dave Brubeck
"É incrível que 'Time Out' sobreviveu ao teste do tempo"

Há 50 anos, influenciado pelo compositor francês clássico moderno Darius Milhaud, o pianista americano Dave Brubeck revolucionou o mundo do jazz com o álbum "Time Out", do qual se destacou "Take Five", um dos clássicos da música do século 20, que ainda hoje causa arrepios a todos os amantes do jazz ou aspirantes a músico tão logo tem início o inebriante solo do saxofonista Paul Desmond. Brubeck desenvolveu uma técnica inovadora que aliava o contraponto (técnica de condução da linha melódica) ao poliritimismo e com isso entrou para a história da música, ampliando seu talento posteriormente não apenas no jazz como também na criação de oratórios e até música para balé. Em entrevista por e-mail, de sua casa em Connecticut (EUA), Brubeck fala de sua vida, de seus projetos, do prazer que, aos 88 anos, lhe proporciona a música e, principalmente de seu legado às futuras gerações. "Tenho muito orgulho das muitas "portas" que se abriram", afirma.

Agora que o mundo da música celebra o aniversário dos 50 anos de "Time Out", gostaria de saber sua principal influência ao fazer este álbum. A música clássica é uma das principais chaves para se entender a revolução que o senhor fez com o compasso e o ritmo do jazz?
É incrível que "Time Out" sobreviveu ao teste do tempo. Quando eu tentei pela primeira vez encontrar uma gravadora interessada em gravar meu grupo, todos disseram que não estavam interessados. Eu tive que começar a Fantasy Records para divulgar minha música. Depois, eu perdi o controle da gravadora para meus "parceiros", mas terminei na Columbia Records. "Time Out" quebrou todas as regras. Havia somente composições originais, o que foi altamente desencorajado pela Columbia. Além disso, as composições eram todas em estranhos compassos. Não havia uma garota bonita na capa, nós queríamos arte moderna. O departamento de marketing não queria o LP, e sentou em cima dele por um ano e meio. O presidente da Columbia, (naquele tempo eles eram pessoas com inclinações para a música, não advogados e puros homens de negócio), achou que a gravação tinha um som e um estilo especial e, seguido pelos seus instintos musicais, usou o seu poder para ignorar o departamento de marketing. O resto é história.

Quando o senhor começou a estudar música, quase foi expulso da Faculdade porque descobriram que não sabia ler partitura. Como superou isso?
Curiosamente eu superei meus problemas com a leitura de música escrevendo incansavelmente. Quando eu era criança, eu tive alguma forma de dislexia, na qual meu cérebro não processava facilmente o que meus olhos estavam vendo na partitura. Mas meus ouvidos eram tão bons que eu podia "colar" em todos os exames. Quando meu problema foi descoberto no exame final da Universidade, a escola ficou dividida entre os que queriam me reprovar, e os que gostariam de me aprovar. Alguns professores disseram que eu era o melhor estudante que eles já tiveram, 'não podemos reprovar aquele rapaz'. Finalmente uma promessa foi feita, eles me deixaram me formar se eu prometesse nunca dar aulas, em lugar algum. E isso deu certo. Agora, a mesma universidade é o lar do Brubeck Institute, na Universidade do Pacífico em Stockton, Califórnia.

E a música clássica?
Meu interesse em música clássica começou com a minha mãe, que era também uma pianista clássica. Aliás, meu pai era um caubói, e eu cresci como um caubói que também aprendeu piano com a mãe. Ela ensinou piano para todas as crianças em nossa pequena cidade do norte da Califórnia. Após a Segunda Guerra Mundial, eu estudei com o compositor francês Darius Milhaud. Ele me disse que o futuro da música clássica americana era incorporar o jazz ao mundo orquestral. Ele me alertou para não imitar a tradição europeia. Jazz era realmente uma original e peculiar forma de arte americana. Ele foi o meu mentor sob diversos aspectos e eu segui o seu conselho à medida em que escrevia mais e mais música clássica.

Como foi o seu relacionamento com outros mestres do jazz com os quais o senhor conviveu, como Duke Ellington, Louis Armstrong e Paul Desmond. É verdade que, quando a revista "Time" optou pelo senhor a Duke Ellington em sua capa em 1954, o senhor teria dito a Duke que ele é que merecia o espaço?
Duke Ellington (1899-1974) foi o meu herói na música. Você podia ouvir em sua música que ele era um compositor a frente do seu tempo, que estava constantemente expandindo o vocabulário do jazz e as estruturas tradicionais do jazz. Nossa banda fez um tour junto com Duke, e ele me mostrou que eu estava na capa da "Time Magazine". Deveria ter sido ele, que era já um grande mestre, enquanto eu era um músico novo que estava justamente começando a deixar minha marca no cenário nacional do jazz.

E sobre Armstrong?
Louis Armstrong (1901-1971) foi outra lenda internacional. Minha mulher Iola, que é uma grande letrista, e eu escrevemos um musical para ele chamado "The Real Ambassadors". Nós o gravamos com a Columbia Records juntamente com a banda de Louis. O objetivo era fazer uma turnê ao redor do mundo. Foi apresentado apenas uma vez, no The Monterey Jazz Festival. Muitos continuam considerando uma das apresentações mais importantes que já se viu naquele grande festival. Mas foi considerada muito controversa para a Broadway.

Apesar das desavenças iniciais com Paul Desmond, o que o ligava a ele?
Paul Desmond e eu tínhamos uma química musical muito especial que nunca será repetida. Ele era como o tio de meus filhos, e nós nos preocupávamos realmente um com o outro. Eu era "homem de família", enquanto Paul era um solteiro incorrigível. Nossos modos de vida eram completamente diferentes. Mas a nossa proximidade musical nos manteve juntos. Ele entendeu meu objetivo de improvisar por meio de contrapontos (uma ideia mais da música clássica) o que foi um elemento que eu gostaria que fosse característico do meu estilo de jazz. Ele tinha um lirismo belíssimo quando tocava. Eu acho que foi o guitarrista Jim Hall que disse: "Paul é o único cara que consegue improvisar uma melodia num acorde que é ainda mais bela que a melodia original." Ele era um músico único.

No site de seu instituto, o senhor afirma que gostaria de ser lembrado como "aquele que abriu as portas". O Instituto, claro, foi uma forma, ao incentivar o estudo da música. O senhor também abriu portas para o jazz e a música clássica. É ainda a forma como o senhor gostaria de ser lembrado?
Quando eu olho para a minha carreira eu tenho muito orgulho das muitas "portas" que se abriram. Foi ideia da minha mulher em promover concertos em universidades, acredite ou não, isso não havia sido feito antes. Muitas pessoas sabem que meu grupo foi o primeiro a tocar compassos inusuais como 5/4, 9/8, 7/4, etc. Meu grupo percebeu os desafios quando integramos Eugene Wright como baixista. Ele é afro-americano e nós tivemos que nos levantar contra essa forma limitada de pensamento nos Estados Unidos. O tour do nosso Departamento de Estado abriu também meus ouvidos a sons de culturas musicais totalmente diferentes, e eu incorporei a música e os elementos rítmicos na minha música. Minha colaboração com meu irmão Howard (que foi um grande compositor e arranjador) com Leonard Berstein e a Filarmônica de Nova York foi uma nova "porta" pela qual os músicos de jazz puderam passar.

Como o senhor consegue manter uma agenda repleta de shows, prestes a completar 89 anos? O que o leva a tocar todo dia, com o mesmo vigor de quando começou sua carreira?
Felizmente, as pessoas continuam querendo me ouvir tocar minhas músicas. Eu tenho muita sorte em ter esses fãs que apreciam o meu grupo. Tocar me dá grande alegria e faz me sentir mais jovem. Diferente das viagens para realizar concertos, que me fazem sentir a minha verdadeira idade. Minha família está a todo momento me dizendo para reduzir a quantidade de concertos por ano, e cortar as viagens de longa distância.

No dia 2 de outubro, você será regido em Nova York pelo brasileiro João Carlos Martins, com a Orquestra Bachiana. O que significa para você esse concerto?
Eu conheci João Carlos Martins no Alasca num festival de música. Eu já o havia visto na televisão quando jovem e ouvi alguns de suas gravações fantásticas. Ele me honrou ao tocar "Blue Rondo a la Turk" durante seu concerto. É um sonho maravilhoso trabalharmos juntos em Nova York no próximo outono agora que ele se fez um habilidoso maestro.



"Nada faz um pai se sentir tão orgulhoso quanto tocar com seus filhos"



O trote do cavalo marcando o compasso, o vento de encontro ao rosto. E, contrapondo-se ao movimento, o som. O que para alguns isso é simplesmente cavalgar, para outros, é inspiração musical. Foi essa sensação rítmica que levou Dave Brubeck a se aventurar no jazz, ao criar contrapontos aos sons da fazenda onde vivia, e na qual gostaria de ser caubói. Hoje, aos 88 anos, orgulha-se de ter não apenas criado há cinco décadas "Time Out", o disco de jazz que vendeu mais de um milhão de cópias, mas também por ter sido aquilo que hoje é exatamente como ele deseja ser lembrado: o "cara que abriu as portas", ao fundir jazz com música clássica e por conseguir levar seus filhos pelo mesmo caminho.

Na realidade, os celebrados 50 anos não marcam exatamente a data de lançamento do disco. As sete músicas do álbum foram gravadas de 25 de junho a 18 de agosto de 1959, mas o que praticamente se tornaria uma obra de arte e um sucesso de público, pareceu "nada comercial" à Columbia, que estranhava tanto as músicas como a capa do artista Neil Fujita, e só o lançou em 1960.

O estranhamento também se deu em parte do público e entre alguns músicos à época por fatores que então contaminavam a sociedade americana. Primeiro porque Dave, o sax alto Paul Desmond e o baterista Joe Morello eram brancos e o contrabaixista Eugene Wright, negro. O racismo ainda era uma barreira forte naquela época. Ao ponto de, em seu livro de memórias, o presidente americano Barack Obama ligar Brubeck às últimas recordações do pai. "Ele me entregou uma bola de basquetebol e alguns discos de músicas africanas, que dançamos juntos, e me levou para assistir a um concerto de Dave Brubeck. Depois disso, nunca mais vi meu pai."

Brubeck deixou de tocar em vários clubes e universidades que se recusavam a deixar Eugene subir ao palco. Em contrapartida, o mesmo sofreu o "branquelo" Bill Evans quando entrou para a banda do trompetista Miles Davis, que também experimentava novos acordes e compassos no jazz em seu "Kind of Blue", lançado em agosto de 1959. Além de branco, Evans havia substituído Red Garland, o que provocou protestos do público negro, lembra o jornalista Ruy Castro, em sua obra "Tempestade de Ritmos".

Até Miles criticava Brubeck. Segundo Dave, o trompetista lhe disse que ele até tinha swing, mas a sua banda não. O mesmo diriam alguns críticos, que rotularam sua música como "West Cost Jazz", o que virou uma sinônimo de música de "brancos". "Eu me preocuparia se Duke Ellington não gostasse", diz Brubeck em documentário gravado pela TV Educativa da Carolina do Sul, em 2001. Duke, aliás, perdeu para Brubeck a competição pela capa da "Time" em 1954, o que deixou o protagonista com um misto de alegria e tristeza. Duke pode ter feito como quando perguntado sobre o que fazia ao não poder entrar em um hotel pela cor da sua pele. "Eu reunia as forças necessárias para franzir a testa, e escrevia um blues", dizia segundo o documentário "A História do Jazz", de Ken Burns. Mas, no ano seguinte, Dave fez uma música para o amigo, "The Duke".

Fora do tempo - As músicas do cinquentão "Time Out" soavam tão estranhas à época porque Dave é apaixonado também por música clássica, de onde ele trouxe para o jazz o compasso composto, o poliritimismo. Ele tirou o blues de seus 12 compassos e igualmente até então imutável tempo 4/4 ou 3/4, e a politonalidade, tocando acordes que fazem contrapontos.

Sua mãe era professora de piano, dava aulas o dia inteiro e, após o jantar, ainda praticava. Apesar de ouvir as músicas que ela tocava, e também aprender a tocar, ele sonhava mesmo em ser como o pai, fazendeiro. Mas a mãe lhe ensinou a pensar em música mesmo em cima do cavalo, ouvindo o som da fazenda, o que ele encarava como um passa tempo.

Por isso, ao desistir de faculdade de veterinária no segundo ano, Dave entrou para a faculdade de música, saindo de lá apenas sob o juramento de nunca lecionar. Ele podia escrever as notas musicais, mas não conseguia lê-las. "Deve ter sido o maior bloqueio mental de todos os tempos", dizia Dave. Nem o saxofonista Desmond, que conhecera Brubeck num octeto formado após sua graduação, conseguia entender o que saia daquele piano. Ele chegou a deixar a banda, levando Brubeck a ter que vender sanduíches em escritórios. Eles só voltam a se ver quando, após machucar o pescoço nas praias do mesmo Havaí onde tocou para Obama. Brubeck perdeu o emprego na outra banda que reunira, e convidou Desmond a se encontrarem novamente.

No ritmo - Assim, surge o "The Dave Brubeck Quartet", criado em 1951, que só recebeu Morello na bateria em 1956 e, com ele, Dave conseguiu o ritmo que tanto buscava, apesar de Desmond pedir a saída do baterista logo no início. "Nos bastidores, Joe Morello tocava (e faz o som da batida da bateria). Lá tinha o 1, 2, 3, e 4 e 5. E Paul tocou um contraponto. E eu disse que queria essa melodia no álbum porque estava no compasso 5/4", diz Brubeck, também na entrevista à TV americana. Assim nascia "Take Five". Outra composição que mostrava que Brubeck não desprezava o tempo, apenas o dominava a ponto de se colocar fora dele, é a música "Blue Rondo a la Turk", em 9/8, cujo ritmo Brubeck buscou na Turquia.

"Eu o ouvi pela primeira vez aos 22 anos, e achei também estranho, porque ele era diferente do Charlie Parker, do Miles e do Coltrane. Ele não usava as inovações do bebop. Ele pegou do classicismo europeu e pôs swing, 'Thref To Get Ready', por exemplo, me faz lembrar Joseh Haydn", conta o pianista brasileiro Marcos Borelli, 43 anos, que reuniu músicos para tocar a obra de Brubeck em casas de espetáculo de São Paulo. Em seu último CD "Idàrúdapó", as duas primeiras faixas "Choro" e "Playground" carregam influências do pianista americano.

'Cozinha' familiar - Essa foi a "cozinha" que temperou o jazz de Brubeck. No jargão musical, a bateria e o baixo, e em alguns momentos o piano, fazem a "cozinha" para os solistas. São desses instrumentos que emergem a base dos acordes, as variações das quatro principais das sete notas musicais, e o ritmo. Outros discos com experimentos com tempos atípicos dos jazz se seguiram até 1967, quando Dave deixou a banda para ficar mais tempo em casa em Wilton, Connecticut (EUA), para criar os filhos ao redor da música, compondo oratórios, músicas sacras e sinfonias. "Nada faz um pai se sentir tão orgulhoso quanto tocar com seus filhos e ver o público ficar de pé e ir à loucura", diz Dave Brubeck.

A intensa produção e o desejo de ensinar música aos filhos fizeram com que sua casa se transformasse na "cozinha" da qual o velho Dave mais se orgulha. Quatro dos seus seis filhos são músicos e, destes, três também são compositores, que já na década de 70 fazia turnês. A família Brubeck manteve-se unida, até hoje, por meio da música. Já que ele não parava mesmo em casa, porque não todos tocarem juntos? "Algumas famílias vão pescar... e nós tocávamos em concertos em todo os Estados Unidos, Europa, Austrália e até no Brasil", diz o filho Chris.

Tuesday, September 08, 2009

A linha de pescar que trouxe à tona uma babá-cantora

Roger Marzochi

A primeira vez em que tentou tocar um instrumento, entusiasmada pelos cantos que afloravam pelo Nordeste, o resultado não foi lá um sucesso. Seu vizinho improvisou um violão com o que tinha: uma lata grande de goiabada cortada ao meio para amplificar o som das vibrações de linhas de anzóis, buscando pescar a melodia que fosse possível ao seu dedilhar ao longo do braço de mandacaru. Esperou ele sair para a roça, em Ipueiras, no Ceará, e correu para a casa dele. Pegou o tal instrumento, colocou-o nos braços, e num escorregar de dedos, quebrou uma das linhas de pesca, como um peixe bravo. A caixa de ressonância lhe veio à cabeça literalmente quando, irritado, o vizinho descobriu a ousadia. "É, e o sangue escorreu, viu", relembra Maria Lindalva Bezerra, 39 anos, a Lindinha Poeta, que já foi copeira, faxineira e, agora, é babá e cantora há um ano.

A ferida cicatrizou, mas ela manteve firme a idéia de fazer música, não importa o que fizesse para sobreviver. E hoje, além de a música que criou ter ajudado a conquistar o emprego de babá, seu som ganha espaço nas pequenas rádios de sua terra natal, onde também realizará 12 shows em setembro, agora em suas férias. "Vou cantar em bar, em boate e até em casa da luz vermelha”, brinca a babá, enquanto cuida de um menino em uma praça na Vila Madalena, em São Paulo.

“Mas eu faço (música) pelo amor à cultura e por hobby. Eu acho que todos nós temos que pensar positivo também. Eu tenho sim um sonho, de um dia ganhar algum dinheiro. Meu sonho é no povoado onde eu nasci, onde eu não pude ter o que tenho hoje, e fazer um pequeno estúdio para dar aula para as crianças, passar o que eu aprendi. É esse o meu sonho", afirma a cearense, que desde 1986 está morando em São Paulo, onde criou seus quatro filhos e decidiu apostar em seus versos.

Com 16 anos, fazendo faxina em empresas à noite, conheceu o marido, com quem teve duas filhas e dois filhos. Quando a primeira completou dez anos, Lindinha a preparou para cuidar dos irmãos à noite para que pudesse completar o ensino médio em uma escola cujo nome prenunciava o seu destino: Escola Estadual Maestro Fabiano Lozano, em homenagem ao músico e instrumentista, morto em 65, considerado um grande pedagogo vocal do Brasil.

Nas aulas de literatura e de teatro, Lindinha criou coragem para escrever o primeiro poema, chamado "Umbigo e flor". "Tem o rei / tem a rainha / tem o sol e tem a lua / Tem um zangão / tem uma abelinha / um canário e a colerinha / Eu sou o umbigo / Você é uma linda flor / Eu sou o carinho / Você é o amor / Eu sou o jardim, e você, o beija-flor", cantarola. "Eu canto sertanejo e baião. Mas com as letras dá para fazer até um funk. Mas não quero fazer isso com elas não", brinca ela, que já tem 26 músicas.

A segunda foi inspirada na música "Paratodos", de Chico Buarque. "Li um trecho dessa música num livro de português e desafiei a professora. Disse que faria uma música melhor, em 30 minutos", sorri Lindinha, levando a imaginação para a letra de "Meu avô é francês".

Segunda ela, o gosto pela leitura, que a fez devorar livros do Jorge Amado, Clarice Lispector, Adélia Prado e Augusto dos Anjos também a ajudou nas letras. E, principalmente, uma disciplina em especial: teatro. "A Patrícia Teixeira, professora de teatro da escola, também me ajudou muito com seminários, trabalhando teatro e música. Foi muito bom e fui gostando daquilo e, agora, estou doente por música. Eu não vivo sem cantar, tentar passar o que tem de melhor para as pessoas. Ter mais paz."

Os estudos continuaram depois da escola, agora com a cantora Cris Mursa, que a ajuda a fazer arranjos. "Cris Mursa é minha professora de música, de violão e até de ginástica. E é minha terapeuta! Como não tenho muito tempo, e ela é muito profissional, faço tudo com ela."

Suas cantorias na copa de uma representação de uma empresa estrangeira no Itaim atraíram a simpatia da diretora, que lhe convidou para ser babá de seu filho, que também adora música. Como a patroa viaja constantemente e o pequeno fica na casa dos avós, Lindinha tem um tempo sempre para visitar a mãe, que mora agora em Crateús, e aproveita para apresentar suas músicas e buscar apoio das rádios locais.

Sua música já circulou na região pela na rádio Santa Fé, de Cratéus, Rádios Macambira e Rádio Vox, de Ipueiras. "Já foi até um dinheirinho prá minha mãe por causa disso.” Mas e o sucesso? A fama? Ela afirma que não quer isso não. Mas na letra de uma de suas últimas músicas, que foi inspirada após ter conseguido a façanha de capturar vivo com as próprias mãos um sabiá e mostrá-lo à criança que cuida, Lindinha transparece o dilema que há entre o sonho e a realidade. "Eta vida bem difícil / É essa vida de babá / Ela tem uma decisão / Que ela vai ter que tomar / Entre a alegria de uma criança / E a liberdade de um sabiá."

Assim, vai levando a vida, estudando mais para tocar violão e cantar melhor, e colocando aos poucos seus trabalhos no Youtube, como no caso das músicas "Vaqueiro Valente" (http://www.youtube.com/watch?v=0InoERtMGlM) e “Sonhei Com Você”(http://www.youtube.com/watch?v=_kc3zr4UkXw&feature=related).

Thursday, June 11, 2009

Quando a sonda fura o relicário



A Petrobras se excedeu e está sendo castigada pela interferência dos santos. Mas se todo pecado gera um perdão, a correção do caminho se pode dar até pelo o que é, por enquanto, reconhecido como o “mal”. Ao criar o blog "Fatos e Dados", a companhia argumenta que estaria contribuindo com a democracia, por avaliar que a divulgação das respostas dos questionamentos da imprensa no blog, antes mesmo de serem publicadas em forma de matéria pelos veículos de comunicação, seria um exemplo de transparência e não estaria ferindo o sigilo da fonte. Após a pressão, a empresa decidiu publicar as perguntas e respostas da imprensa à meia noite do dia em que a matéria está programada para ser veiculada, o que não chega a ser um sinal que a companhia recuou totalmente na sua queda de braço com a imprensa. Apesar de controverso, tudo indica que a atitude tem respaldo legal, e poderia ainda argumentar que, apesar do princípio da inviolabilidade das comunicações, uma pessoa pode até gravar uma conversa sem que seu interlocutor saiba. O ilegal ocorre quando a conversa é gravada por uma terceira pessoa, sem autorização da Justiça.

A tendência de serem as companhias, cada vez mais, seus próprios veículos de comunicação e de os blogs serem veículos de uma mídia alternativa ascendente, não justifica o fato de a Petrobras "furar" seus concorrentes da antiga banca. Primeiro porque a democracia pressupõe a igualdade de oportunidades e, levando às devidas proporções, o número de assessores de imprensa deveria crescer exponencialmente para atender à demanda dessa nova era da comunicação.

Porque veículos de comunicação seriam mais importantes que qualquer outra pessoa física? Não ficou claro ainda se, por exemplo, o padre Constantino, lá da igreja de Santo Antônio, em Americana, pode enviar para a assessoria de imprensa da Petrobras uma lista com 7 perguntas sobre os pecados capitais do petróleo no Brasil. Por que não poderia? Ele pode usar as respostas para escrever um artigo nos jornais da cidade, um texto para um blog ou mesmo imprimir nos panfletos da próxima Campanha da Fraternidade.

Segundo porque o argumento de dar mais transparência contrasta completamente com uma companhia que, por motivos estratégicos, mantinha até 2007 uma a conta-petróleo, no qual o Tesouro arcava com as subvenções no preço dos combustíveis. Mesmo com o fim da conta, a estatal é ainda considerada uma “caixa-preta” até mesmo para os integrantes do governo e o preço dos combustíveis continua alheio aos movimentos da commodity no mercado internacional. Além disso, se a Petrobras é "nossa", porque não informar quanto gastou para contratar uma assessoria de comunicação?

A decisão, portanto, está longe de contribuir, por si só, com a democracia. A ideia foi fisgada por um profissional que gerencia crises de imagem no sentido de nivelar a comunicação e mesmo intimidar em decorrência da alta temperatura eleitoral de ambos os lados, oposição e situação. A questão básica é que a decisão gerou mais crise e acirrou a pressão por investigação, colocando mais combustível no debate. Mas, mesmo partindo de uma ação com objetivos muito questionáveis, a decisão é um marco para a comunicação no Brasil.

A mídia tradicional já está em processo de deixar o foco excessivo no furo factual para sobreviver à internet, e o blog da Petrobras pode acelerar esse processo ao incentivar que outras empresas tenham atitudes parecidas. Mas, com o tempo, ficará provado que a simples divulgação de questões e respostas deste ou daquele profissional, por si só, deixará de ser importante. O que conta é aquilo que o repórter já obteve sem a ajuda da companhia. Qualquer outro repórter que não souber contrapor os dados, e os fatos, terá uma ação razoavelmente limitada se tentar usar o blog da companhia como fonte. Até o conceito de questionar, em toda matéria, "o outro lado", pode ganhar nova forma com a web. O repórter pode escrever um texto sobre a companhia e avisar: "'clique aqui' para ler em instantes a resposta da Petrobras às acusações."

Por isso, a madeira do relicário da comunicação foi furada pela sonda da Petrobras, e está gotejando a cera das velas acesas até agora a Santo Isidoro, o eleito padroeiro da internet, sob a cabeça de São Francisco de Sales, o Chico Sales (padroeiro dos comunicadores), que não deixará isso ocorrer indefinidamente. Não é porque Isidoro escreveu a primeira enciclopédia do mundo que a web pode ser considerada apenas como uma imensa wikipédia, um compêndio de "fatos" e "dados". Ela é, também, o canal de expressão daqueles orientados pelo Chico. Em uma filipeta, presente que levo há 12 anos na carteira, a imagem do patrono dos escritores e jornalistas vem acompanhada da seguinte frase: "O jornal é um instrumento indiferente para o bem e para o mal; lutemos, pois, para que ele siga o bom caminho." A palavra jornal pode ser substituída por rádio, TV, internet, ebook, iPod, Orkut, Facebook, computador e celular. E quem decidirá para que santo rezar será o leitor e internauta.

Tuesday, December 09, 2008

Ser útil ou ser mais que útil?

Roger Marzochi

A maioria de nós passa a maior parte do tempo buscando ser útil. Queremos mostrar que existimos. E o existir muda de significado à medida que mudamos de fases. Para existir como filho é preciso se sentir reconhecido pela família, sendo bom na escola, com os amigos e com os membros da família. O contrário se dá pelo mesmo motivo, afinal a negação não existiria sem um motivo a ser contestado.

No trabalho queremos também existir e, para isso, é preciso não faltar e até se sentir culpado caso se ausente por causa de alguma doença. É chegar sempre na hora certa e fazer hora extra. Existir na empresa significa “funcionar”. E, para funcionar, é preciso ser igual a uma máquina, cujos problemas são encarados como mal funcionamento, como uma peça, que pode ser trocada para funcionar melhor e mais barato.

Ser útil é sinônimo de adequação a um estilo de produção e à velocidade inerente a esse serviço. Quantas operações por minuto faziam os paquidérmicos computadores à válvula, que preenchiam salas imensas? Hoje, qualquer chaveiro, desses “pen drive”, carrega uma quantidade absurda de informação e, colocado a qualquer computador, dá acesso a uma série de dados que eram impossíveis de serem armazenados e processados antigamente.

Parece haver alguma semelhança com o que ocorre no mercado de trabalho. Antes, uma fábrica tinha um maior número de funcionários, cada um fazendo um determinado serviço. Com o avanço da tecnologia nos meios de produção, funções foram extintas ou acumuladas pelos trabalhadores que restaram. A máquina homem, como na passagem da memória do computador à válvula para o pen drive, também vem reduzindo de volume e processando mais informação. E não adianta argumentar que o setor de serviços tem absorvido essa mão-de-obra, a menos que se considere camelôs e cambistas membros desse setor-salva-vidas do empreendedorismo brasiguaio.

E como em tempo de globalização, de "fusões e aquisições", e de sindicatos vazios de propósitos, mas com os "borná" cheios de dinheiro, a única saída para quem fica é buscar ser, mas do que nunca, mais que útil. Nada de conceitos de administração de empresas, de palestras motivacionais com o Amyr Klink, Alan Greespan ou de gurus do "marketing viral" de uma empresa cujo símbolo é o Herb Way Of Life. Nada de mergulhar cada vez mais na idéia de utilidade.

Ser mais que útil é o único foco de resistência que restou, transcendendo o que se considera útil. Para ser mais que útil é preciso reconhecer que os problemas que emperram as engrenagens não devem ser apenas consertados para manter a máquina em ordem. É preciso saber que o problema é o que nos constitui, o que não significa se acomodar e aceitar, mas encará-lo para que não tenha que viver repetindo-o indefinidamente.

Por todas as nossas fases surgiram possíveis “defeitos” nas engrenagens culturais. A nossa reação a eles, no sentido meramente “mecânico”, de saltá-lo sem defrontar a sua dor ou a sua felicidade por causa do medo é o que define o “ser útil” do “ser mais que útil”. Ser mais que útil é ser belo, e a beleza é essa sensação da poesia de nossas contrariedades, de se surpreender com a expressão do acaso, de entender que você não precisa viver trocando “problemas”, mas buscando a beleza que há no problema da vida.

É, especialmente, ler poesia. Até porque a poesia transgride. É estudar música, até porque a beleza está na escolha de notas soantes e dissonantes. Buscar poesia, psicologia, acupuntura, massoterapia, teatro, literatura, música, jogo de búzios e cartomante apenas para ser útil é um imenso desperdício. É como o massagista em dia de jogo, que tem que fazer o jogador voltar a campo para vencer. Aquilo que é belo não se ganha, não se vence. Ele se expressa ao ponto da sua compreensão. Para quem quer apenas vencer, ser útil basta. Aliás, para alguns, já é muito. Como chegar no horário com esse trânsito infernal? Como produzir mais com menos e mais rápido, com “problemas” zero? Mas quem quer ser mais do que útil sabe que, em alguns momentos, perder é ganhar.

Wednesday, May 28, 2008

A santíssima trindade

Cruzei a Paulista pela Joaquim Eugênio de Lima. 23h40. Entre as nuvens baixas, ainda conseguia ver a lua ao fundo da névoa escura, que havia se esvaído em uma forte chuva. A caminho da “Prainha”, como é conhecida a esquina repleta de bares com mesas na calçada, na diagonal do prédio da Gazeta, eu revi a minha vida em flashes, no mesmo ritmo das imagens das placas de publicidade luminosa que ora preenchia o céu da Paulista, e já não poluem mais a cidade. Lembrei de quando conheci a avenida pela primeira vez, aos 16 anos, quando visitei uma tia. Recordava da sensação de seguir por ruas que me pareciam muito mais amplas à época, para além da comparação com as ruas de Americana, minha cidade. A sensação de ver o Masp, como que flutuando entre suas colunas, e muitas e muitas outras ruas, que não constavam no meu mapa de orientação espacial mental, prometiam-me o inesperado. Quanta coisa eu vivi em 34 anos. Pouco, ou muito, não importa medir isso em tempo, mas em intensidade. Quanto esforço, e quantos sonhos foram conquistados para depois dar espaço para novos sonhos, ou para a vaga traiçoeira dos desencantos. E, naquele momento, meus olhos choveram carregados por um amor que eu mal podia imaginar que um dia me seria permitido. Eu estava, definitivamente, caminhando sozinho até um bar para comemorar a vinda de Vinícius, meu filho cujo nascimento eu acabara de assistir. Já com um copo na mão, explodindo de alegria e encanto, buscando explicações para o inefável, relembrava minha vida toda e agradecia todos os que cruzaram meu caminho até aquele momento e que, direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, ajudaram-me a alcançar o que considero o ápice da felicidade.

E contraditoriamente, justo alí, na mesma “Prainha”, eu havia tido o primeiro contato com a loucura explícita de São Paulo, quando comecei a morar aqui, em 1997. Um rapaz fazia pirofagia nessa mesma esquina, num sábado à tarde, para impressionar os clientes dos bares da distinta “Prainha”. Ignorando o trânsito, colocou-se no meio da rua para sua apresentação. Mas enquanto cuspia fogo, um ônibus teve que frear bruscamente para não atropelar o nosso “boitatá” do asfalto. Talvez pelo susto, pelo fogo, ou um conjunto de salário baixo, irritação e embrutecimento, o motorista desceu do coletivo e, sem pestanejar, golpeou uma, duas, três, quatro vezes as narinas fumegantes do pobre homem, que foi à lona quadriculada da calçada. Vitorioso na luta, o motorista seguiu viagem, como um bandeirante que abre espaço na mata rumo ao desenvolvimento. Mas o pirofagista se ergueu, nariz em sangue, e resignado foi até os clientes dos bares pedir dinheiro. O espetáculo tem que continuar.
Agradeci no mesmo instante o pirofagista, cuja ousadia me fez sintetizar a minha experiência em São Paulo, e na vida. Muitas vezes o jornalismo, profissão na qual mergulhei durante o processo de impeachment de Fernando Collor, é similar ao trabalho (ou a falta de trabalho) de nosso amigo circense. Precisa parar o trânsito, arriscar os lábios e o corpo no fogo, ir à lona por subverter o que é considerado ordem “natural” das coisas e se reerguer para sobreviver na sua arte, com ou sem ousadia, mas sobreviver. Da mesma forma, é preciso amar e se doar quantas vezes for necessário apesar do risco de ser nocauteado pelas circunstâncias.

E eu já havia sido derrubado uma porção de vezes! E estava, então, ganhando um prêmio inacreditável em todas as esferas da vida, que me encheu de orgulho, de carinho e de sensação de realização plena. Entre estourar a bolsa e o nascimento do bebê a adrenalina era tão grande que só me permitia agir e rezar. Agora, olhando minha esposa Adriana Costa, ainda não dá para acreditar que conquistamos um momento como esse. Ao chegar até a mesa dela, num bar de Americana naquele 21 de abril de 2004, eu estava leve apesar dos quase 100 quilos, querendo me permitir a amar novamente. E trocando sorrisos, olhares e conversa, senti que sem querer estava diante de uma mulher muito especial. E veio a amizade, o amor, o namoro e, agora, o Vinícius, que me surpreende a cada dia, a cada fase da sua experiência. Ser pai ampliou minha percepção enquanto filho de vários pais, unificou minha consciência de família, para que eu possa dar à paternidade o seu exato sentido naquilo que considero a essência da santíssima trindade: pai, filho e o espírito santo daquela que deu sentido ao roteiro de nossas vidas.