off line

Blog para divulgação de artigos e textos jornalísticos que transgridam o conceito do jornalismo online.

Wednesday, February 29, 2012

Ulisses Rocha montará curso de violão da Universidade da Flórida

O compositor e violonista Ulisses Rocha foi convidado pela Universidade da Flórida, na cidade de Gaines Vile, nos Estados Unidos, a montar o programa de estudos para violão da Faculdade de Música. Além disso, vai lecionar na faculdade por um ano, mostrando a importância da música brasileira no exterior e o sucesso da carreira do músico, que já gravou seis discos e tocou com importantes nomes da música brasileira como Egberto Gismonti, Paco de Lucia, Al di Meola, César Camargo Mariano, Hermeto Pascoal, Gal Costa entre vários outros artistas.

"Eu fiquei super contente (com o convite) por vários motivos. Primeiro por começar a ter noção de como a música brasilera é importante fora do país, com uma univerisadde querendo desenvolver um programa de violão. A música brasileira tem muita força. E eu sou um cara que gosta de desafios novos. E para mim é um motivo de levar a música brasileira lá fora institucionalmente. Não vou ser primeiro nem o último, porque há algum tempo univeridades americanas e européias vem se interessando pela música brasileira”, diz o músico em entrevista ao off line.

O curso será desenvolvido dentro do instituto de estudos brasileiros da universidade e as aulas, que terão enfoque de música brasileira, começarão em agosto. Com isso, o músico vai morar um ano nos Estados Unidos e terá que pedir licença da Faculdade de Música da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também leciona violão.

Mesmo fora do País, Rocha aproveitará as folgas do calendário acadêmico para dar continuidade aos shows nos Estados Unidos e no Brasil de “Só”, o seu mais novo disco, lançado no ano passado, quando o músico decidiu gravar, sozinho, dez músicas suas na sala de sua própria casa, aproveitando o silêncio da noite.

"A Flórida não é tão longe. Se tiver show no Brasil num fim de semana, faço um bate e volta. Já fiz isso em shows na Europa. Eu fiz um bate volta uma vez com o Teco Cardoso (saxofonista) para o Kwait, foram 18 horas de viagem de ida, fomos para o show e voltamos. Em quatro dias fomos até lá e voltamos (risos). É só se organizar para manter esssa ponte.”

Shows - Agora em março, o músico se apresentará no dia 8 com o percussionista Caíto Marcontes, no projeto Encontros Musicais. Será uma jam session com muita improvisação para a dupla relembrar os velhos tempos. O local do show será no Centro Cultural b_arco, na rua Dr. Virgilio de Carvalho Pinto, 426, em Pinheiros, em São Paulo. Ingressos por meio do site www.obarco.com.br, telefone 11 3081 6986.

No dia 19 de março, Rocha se apresentará no projeto Música em Trancoso, participando de duo com César Camargo Mariano, que ainda tocará com convidados que incluem o próprio Teco Cardoso, Mônica Salmaso e Sizão Machado. Haverá, no mesmo dia, apresentações da Banda Mantiqueira e Orquestra Juvenil da Bahia. Mais informações por meio do site http://musicaemtrancoso.org.br.

Tuesday, February 21, 2012

Música de Graça já soma 100 mil downloads

O Música de Graça, criado pela fotógrafa, cantora e musicista Daniela Gurgel, já soma 100 mil downloads com as músicas que começaram a ser divulgadas no site no dia 1 de maio do ano passado. O site tem como objetivo promover a união de artistas jovens para troca de repertório e criação de novas músicas e é um importante espaço alternativo de divulgação.

Além da gravação da música para download, que pode ser baixada pela página na web, perfil no Facebook ou por meio do iTunes, Dani comanda um bate-papo descontraído com a moçada revelando mais um talento da cantora, que se tornou uma das mais importantes forças de divulgação da música de qualidade no Brasil. As entrevistas também podem ser acompanhadas por meio do site www.musicadegraca.com.br.

O site tem uma média de 40 mil acessos por mês. “É uma fagulha para mostrar algo diferente”, explica Dani. Com o site, por exemplo, “o Pedro Mariano e a Luiza Possi gravaram uma música da Luiza e ele acabou gravando no disco dele”, lembra Dani, sobre a música “Sei de Mim”, de Luiza Possi com o Dudu Falcão, gravada especialmente para o site com a participação de Conrado Goys. As gravações para o site são realizadas na Oca - Casa de Som.

Em fevereiro, o site lançou a música “Descompassamba”, parceria de Dani Gurgel e Edu Krieger, numa composição à distância, que o Edu recebeu a música por e-mail para colocar a letra. “Eu adoro compor à distância”, diz Edu, na entrevista de lançamento da música, que contou com a parceria de Joana Duáh e Sergio Krakowski.

No dia 1 de março, vai ao ar uma parceria de Vanessa Moreno, Filipe Marostica e Zezinho Pitoco. A expectativa é que se repita em 2012 o show no Auditório Ibirapuera no fim do ano, reunindo a maioria dos artistas que lançou músicas por meio do site. O show do ano passado foi vibrante, com o lançamento de uma música inédita de Dani Gurgel ainda sem nome.

Wednesday, September 28, 2011

Elefante sobre o Epte: cresce a organização para amplificar o som das big bands



"Qual banda nacional ou internacional você mais admira?”, perguntou a repórter Andréa Fischer a Luís Fernando Veríssimo, para o texto de capa da revista TopMed Magazine, de abril, maio e junho de 2011. “São muitas. Só estou um pouco desatualizado em matéria de jazz. Sempre digo que só confio em músicos de jazz que estejam mortos há pelo menos cinco anos”, respondeu. Ele é modesto. E muito bem humorado!

Na foto publicada na página que ilustra a pergunta, ele sorri, de leve, abraçado ao saxofone. “Você ensaia com o grupo ou separado?”, perguntou a repórter. “Ensaiamos nas apresentações. Me envergonho de dizer.” Boa parte do jazz, ou música instrumental, ou música instrumental brasileira - ou seja lá o nome mais apropriado - tem essa característica: "ensaiar" ao vivo. Existe, geralmente, um tema, que é o que pode fisgar o ouvinte e, ao longo da música, os músicos improvisam. É só combinar a regra.

E tem mais gente “ensaiando” ao vivo. Só para citar um caso: o Movimento Elefantes, que reúne dez big bands, que se apresentam com maior frequência no Teatro da Vila, em São Paulo. “Big” porque realmente são bandas imensas, com naipe de metais, bateria, percussão, guitarra, piano e o que mais puder entrar. Além de desenvolverem repertório autoral, colocam em prática composições de músicos consagrados.

Recentemente, por exemplo, o movimento lançou um disco com uma música de cada banda. Em 2009, haviam lançado um DVD, quando o Elefantes reunia nove bandas. A Banda Urbana foi a escolhida para abrir o disco com a música “Casa da Sogra”, composição de Léa Freire e arranjo do trompetista Rubinho Antunes, que agora torce para o São Paulo em Paris. A banda Savana, comandanda pelo maestro Branco, apresenta no disco o “Ponteio da Savana”, composição feita em homenagem à banda pelo maestro Edmundo Villani-Côrtes.

Na sequência: Projeto Meretrio com “Os primeiros serão só os primeiros”, composição e arranjo de Emiliano Sampaio; Orquestra Heartbreakers, “Não se aborreça”, composição de Guga Stroeter, Patricia Secchis e Yaniel Matos, com arranjo de Dino Barioni; Reteté Big Band, “Remember Pastels”, composição e arranjo de Thiago Alves; Banda Jazzco, “Sambalombra”, de Amador Bueno; Projeto Coisa Fina, “Dia Seguinte”, de Vinícius Pereira, com arranjo do próprio Vinícius e Vittor Cáffaro; Grupo Comboio, “Samba Pra Dori”, composição e arranjo de Rui Barossi; Soundscape Big Band, “Circlos”, de Gustavo Bugni; e a Big da Santa, com “Duda no Frevo”, de Senê e arranjo de Paulo Tinê.

O grande problema: ouvir um disco não é a mesma coisa que estar de frente a uma orquestra, quebrando a barreira imposta pela reprodutibilidade técnica de um disco. Um amigo frequentemente usa um exemplo importante sobre a música ao vivo: é o mesmo que entrar na água. A que Claude Monet pintou no quadro “Canoa sobre o Epte” está sempre em movimento. Mas só ao vivo é possível perceber isso. Abaixo, a entrevista feita por e-mail com Vinícius Pereira, o principal líder do movimento, que discute aqui as dificuldades em colocar o Elefante para navegar por vários outros rios.

"Desaprendemos a gastar com cultura"
O Movimento Elefantes foi criado para dar força às big bands e divulgar essa sonoridade para um maior número de pessoas. É possível mensurar essa exposição? Quantos shows foram feitos no primeiro ano de existência do movimento, quantos shows são feitos hoje?

Vinícius Pereira - Uma média de 65 shows por ano somando o Teatro da Vila, mais as temporadas fora (SESCS e afins) sem contar os shows fechados individualmente pelas bandas.

Há alguma ideia sobre o número de pessoas que já tiveram acesso ao som de cada uma das 10 bandas?

Vinícius Pereira - No Teatro da Vila a média é de 60 pessoas por show. 44 shows por ano. No Museu da Casa Brasileira (ano passado foram 10) a média foi de 450 por show. Fora Virada Cultural, Carnaval na Contramão, virge... num sei te dizer!

Disco e DVD são importantes para difundir o som. Mas nada substitui um show. Em sua opinião, porque parece ser tão difícil levar o Movimento para outras cidades, outros Estados, considerando, claro, que há sempre uma ou outra banda com participação de festivais importantes, como a Mostra Internacional de Música de Olinda (Mimo), que você participou com o Projeto Coisa Fina recentemente.

Vinícius Pereira - Por que desaprendemos a gastar com cultura. Substituímos a arte pelo entretenimento. Então pagamos um valor fixo mensal pelo canal de TV ou pelo acesso à NET. Fui assistir a um show incrível da Léa Freire na Casa do Núcleo, R$ 20,00 eu + R$ 20,00 a patroa. Em uma horinha e meia gastamos quarentão. É uma grana. Mas foi um puta show. Foda. Eu to reclamando de R$ 40, mas na semana passada fomos jantar com uns amigos numa pizzaria lá e a nossa parte ficou em R$ 80... Mas na hora ninguém reclamou...

O povo tá mal acostumado. Só assiste show de graça. O governo subsidia as apresentações artísticas e o SESC também. Por um lado é ótimo, o artista tem trabalho. Agora quando eles param de subsidiar, ou quando julgam caro o seu produto, você não se apresenta, por que o público foi educado a não pagar por arte, por que tem de graça. O público paga por entretenimento...

No pague quanto vale no Teatro da Vila a média de arrecadação tem sido “R$ 2,41 por pessoa”... Ou seja: precisamos reeducar as pessoas a investir em arte. É um processo que temos de viver e contar também com a ajuda daqueles conscientes, a ajudar a levar os amigos a viver a experiência do ao vivo, para ver que vale o investimento! Eu mesmo não saia de casa para ver um show a meses... depois do show de ontem (20/09), da Léa, me inspirou a ir hoje ver o Zé Menezes (que já está com 90 anos! www.zemenezes.com.br - integrou o Sexteto Radamés Gnatalli e se apresentava com o Garoto) e sexta ver o Laércio de Freitas!!! (pianista, maestro e arranjador - http://www.maritaca.art.br/laercio.html e http://www.myspace.com/laerciodefreitas)

É tão prazeroso ouvir o som do instrumento do cara, não é uma reprodução, não é o ponto de vista do cameraman, é o meu ponto de vista, audição, olfato e de todos os outros sentidos que não conseguimos catalogar. Mas voltando ao tema das bigs no interior, quanto custa contratar uma big band? Cachê de 15 músicos, transporte, hospedagem, alimentação, produção, impostos... Com o custo da apresentação de uma banda dá pra quase fazer um mês de programação com trios a quintetos...

Além de o show ser mais vivo, que outras qualidades um show pode proporcionar? Exemplo: uma coisa é ouvir com fone de ouvido o disco, ou ouvir e ver na TV o DVD, outra é entrar no mar... Uma coisa é ver o carnaval na TV, por exemplo, outra é fazer parte da bateria... Pode falar algo sobre essa relação da tecnologia fazendo a mediação com os sentidos?

Vinícius Pereira - O que acontece no palco depende do que acontece na platéia. O público tem um papel fundamental no resultado musical de qualquer apresentação. Quando o músico está inteiro, realmente envolvido com a música que está fazendo, é inevitável o público sentir tudo isso e gerar sensações indescritíveis que o público manisfestará ao final da música seja com aplausos, gritos, assovios etc... Quando essa energia volta pro palco o músico percebe que sim, que não era coisa da cabeça dele, acontecetu arte ali mesmo e isso o deixa mais seguro e à vontade para se deixar levar mais, para se deixar tomar por aquela coisa que não dá pra descrever e deixar acontecer arte na frente de todo mundo.

Quanto mais o público está inteiro na apresentação, mais encorajado o artista se sente para despirse diante dele e se arriscar a dizer o que sabe e o que não sabe, a deixar seu corpo se transformar numa ponte entre o objetivo e o subjetivo, entre o cá e o lá, e toda essa energia só prova quem está lá. Assim como a TV não transmite o maravilhoso aroma do perfume daquela atriz, não transmite também essa energia toda que acontece ao vivo. Transmite todas as notas. Mas a energia...

Não seria o caso de buscar recursos, por meio de crowdfunding, por exemplo, para conseguir concretizar algum projeto de apresentação das bandas do movimento em coretos pelo interior do Estado? Ou promover um contato com diretórios acadêmicos para realizar apresentações em universidades?

Vinícius Pereira - Pretendemos realizar diversos tipos de projetos de circulação de shows, com os mais diversos parceiros e plataformas de financiamentos. Mas antes, decidimos organizar a casa. Estamos a 3 anos vivendo na informalidade total e agora decidimos que chegou o momento de arrumar a casa, criarmos uma pessoa jurídica para podermos nos inscrever em editais, etc. Estamos elaborando o estatuto da nossa associação!!! Com isso pronto começaremos a buscar parceiros pra nos ajudar a fazer a coisa circular pra valer! E vai dar certo, tenho certeza.


Arte do Elefante sobre o Epte Muito Bem Acompanhado é do menino MTC; foto desfocada da Reteté é do arquivo pessoal de Roger Marzochi; foto do maestro Branco obtida no site da Savana; foto do Projeto Coisa Fina obtida no site da banda.

Wednesday, September 14, 2011

O ouvido é todo o corpo


Os músicos sofrem muitas injustiças nessa vida. No interior de São Paulo, por exemplo, um motel uma vez usou um trechinho da trilha de Miles Davis para o filme "Ascensor para o Cadafalso” (Ascenseur Pour l'échafaud – 1957), de Louis Malle, numa propaganda no rádio. Propaganda enganosa: nenhum motel seria grande o bastante para tantos amantes. E o risco de processo era até maior, ainda mais no interior do planeta, onde as pessoas têm o infeliz prazer de dividir sexo e amor. Em Miles, Barney Wilen (sax tenor), René Urtreger (piano), Pierre Michelot (contrabaixo) e Kenny Clarke (bateria) não há um instante sem sexo e amor, juntos, entre todos e quem escuta, nem que seja por apenas três eternos segundos.


Mas há quem possa não ter escutado a trilha sonora inteira e visto apenas o filme e, acostumado à trilha sonora de videogame ou às reportagens da revista Playboy, acusar quem escreve de ladrão, bicha e maconheiro. “Vejo como as pessoas fazem leituras rasas das coisas. Vira uma manchete assim, do sexo anal, e ninguém reparou que não estava falando de mim, mas de uma maneira geral. Mas o que quiseram deixar como fato foi isso. A gente se revolta porque o mundo é um pouco injusto”, disse a cantora Sandy em entrevista à TV UOL divulgada no dia 31/08, sobre o fatídico dia que causou o gozo no país dos eunucos, quando a supracitada revista divulgou na web trechinhos (eles, de novo) do que viria a ser a sua incrível descoberta.


Ouvido de serpente - Tudo isso porque no filme, o romance proibido entre Julien Tavernier (Maurice Ronet) e Florence Carala (Jeanne Moreau, na foto acima com o ouvido no trompete de Miles!) é frustrado. A conversa apaixonada ao telefone logo no início da película e, no fim, as fotos reveladas de seu triste destino, são os únicos momentos visíveis dos vestígios de um amor. O resto é tensão, solidão, desespero e medo. Onde está amor e sexo?


A poetisa, cantora e atriz Beatriz Azevedo ensina em “Alegria”, seu último disco, gravado graças ao apoio da Petrobras em cultura, em 2008. Essa mulher de cabelos encaracolados atrai só pela sua beleza, mas que logo revela a extensão da alma em suas letras e em seu ritmo, uma mistura de Brasil e do mundo que, de tão saborosa, vira pop - para a tristeza de quem anda pensando em “salvar o pop”, Beatriz já fez isso há três anos. O disco tem a direção de Cristovão Bastos e músicos como o trombonista Bocato e participações especiais de Vinícius Cantuária e Tom Zé.


Na música e na letra de “Rede”, terceira faixa, além de deixar o ouvinte em êxtase, provoca em prosa: “Devoração de Partido Alto carioca com a mitologia das serpentes, simbolizando sabedoria e cura. As serpentes que protegem a meditação de Buda em sete espirais. O encantador de serpentes precisa dançar com sua flauta – a cobra é surda. Não é o som que encanta, e sim o movimento. Auto-devoração, oroboros.” Bem, de tudo isso, ouvi-la a princípio já desperta o seguinte: o ouvido da cobra é todo o corpo, porque o som da flauta (e da sua voz) também é movimento do ar. Quando se chega em “Circo”, a sexta faixa, a beleza é a da barriga do mundo, no centro de um outro planeta, parece até platônico.


Mas esse amor é real, está ao alcance do corpo e da alma, e tem sido emanado por muita gente. Basta ouvir, entrar na água, ir a um show. No dia 29/08, esteve em São Paulo a cantora Karen Souza, sobre a qual não se precisa saber muito, assim como Beatriz, por darem sabor ao que fazem e, igualmente, por dizerem: goste ou não, é isso o que eu faço.


O show durou para sempre naquele Teatro Bradesco, repleto de gente frente a uma mulher não apenas belíssima, mas com uma voz incrível e uma banda muito feliz, que se inspirava sempre naquilo que a estrela deveria estar esperando como resposta às suas frases, súplicas e mais íntimos segredos, mesmo cantando rock dos anos 80/90 em arranjos jazzísticos. Quando “Tainted Love” parecia o ápice, ela apresentou a banda de um jeito muito bom no meio da música “Wake Up and Make Love With Me”. A devoração poética foi total. E tão completa quanto ouvir Júlia Tygel em “Entremeados”, com Vana Bock, Adriana Holtz, Thais Nicodemo e João Taubkin em declarações de amor eterno à humanidade, abraçados de um lado pela "música popular brasileira" e, de outro, pela música dita "erudita" em uma noite sem lua cheia. No meio deles todos, nós!

Tuesday, September 13, 2011

Música livre, pero no mucho

Se você apontar o dedo no nariz de alguém, saiba que outros três estarão apontados para o seu. É o que diz um amigo, no tempo certo da comédia. E se há beleza na comédia, por que ela é tão rara em “Paralelas”, o novo disco gravado em parceria entre os saxofonistas Marcelo Coelho, do Brasil, e Rodrigo Dominguez, da Argentina, lançado pelo selo especializado em música de qualidade Tratore?


Há realmente algo de estranho com alguns intelectuais, como já notara Eduardo Galeano. Estuda-se tanto para que se não são capazes de exercer sua liberdade de expressão ou dar sabor ao que fazem? Marcelo Coelho fez mestrado em “Jazz Performance” pela “University of Miami” e tem doutorado em composição pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Nada contra estudar, por favor. Isso é sempre bom aqui ou no exterior.


Mas continuando: “Marcelo atualmente desenvolve seu trabalho de criação no departamento de Música da USP, atráves do laboratório de composição e improvisação, tema do seu projeto de pós-doutorado”, explica o release da assessoria, que antes já havia informado que “Marcelo nos apresenta uma obra digna de nota, que pode dar uma contribuição significativa para o desenvolvimento da linguagem musical contemporânea”.


Ele estudou, conheceu o mundo, aprendeu padrões e técnicas ao máximo para conseguir ser livre. É um trabalho hercúleo o dele, tendo em vista o que já fazem muitos músicos dessa dita área “contemporânea” e está longe de conseguir chegar próximo de material digno de nota como um John Coltrane, Ornette Coleman ou, porque não, de Pixinguinha, Cartola, Heitor Villa-Lobos, Armando Lôbo, Beto Sporleder, Rui Barossi e outros músicos que atualmente exercem plenamente a liberdade, ainda tão almejada por Coelho e Domingues, que esperam passivos pela salvação de alguma alma caridosa para conseguir levar a sua música para o mundo. A iniciativa é também livre.


Essa história de “música livre” nos Estados Unidos não se restringia só a mudanças técnicas, no fazer musical, mas na quebra de padrões pré-estabelecidos num reflexo próximo ao da luta pelos direitos civis. E evoluiu até as experiências do compositor John Cage, maluco beleza que defendia o prazer do som pelo som, sem qualquer relação com sensações e que chegou a fazer a famosa obra 4’33’’, uma orquestra inteira em silêncio durante quatro minutos e trinta e três segundos. Mas há um prazer imenso no silêncio ao vivo e como o silêncio joga para dentro da música quem escuta.


Mas o interessante é: isso não virar rótulo. Quando Villa-Lobos subiu ao palco do Municipal na Semana de Arte Moderna de 22 com um pé com pano e outro sem, era mais por questões de saúde que estéticas, apesar de a imagem do maestro com uma perna na tradição e a outra no popular fosse o símbolo de sua arte livre. Mas a “métrica” livre e inovadora só parece existir de fato quando mudanças muito mais amplas ocorrem na música.


Da mesma forma que o jazz nos EUA acabou incorporando os ruídos das máquinas, da cidade, como por exemplo, no som de um trem, como também fez Villa-Lobos, seja na melodia ou no ritmo, ou em ambos, muita gente consegue fazer música hoje a partir de ordenação do ruído randômico e aleatrório de um computador pessoal com todo o vazio existencial das redes difusas de relacionamentos superficiais. É bom dar uma tungadinha no Facebook sempre.


Pode ser que haja música que represente o fim de uma história de amor; ou o começo de uma nova forma de pensar a sociedade; ou pode não ser nada, mas mesmo assim, de alguma forma inexplicável, gera um prazer ao transmitir o "sabor" de um sentido intangível. Por isso, poético, belo, divino e demoníaco em sua extrema humanidade, capaz de dar dimensões de cor, sabor e, principalemte calor. Ou dane-se Cage, apenas o som do roronar dos pneus no asfalto.


Mas em "Paralelas", Coelho e Dominguez são mais vítimas do vazio existencial e das redes de relacionamento que geradores de prazeres e sentidos intangíveis. Das sete músicas, duas são dignas de nota: “Sono”, composição do brasileiro, e “Lechuza”, tema do argentino. Esta tem um pouquinho mais de sabor que "Sono", porque é a única música onde dá para ouvir um sax soprano e um tenor juntos. O disco todo são os dois tenores buscando se completar. Escute. Mas se embrulhar o estômago, procure na sequência ouvir "Remember Pastels", música de Thiago Alves da Reteté Big Band, que está no novo disco do Movimento Elefantes. Parece que dão valor só quando se faz "irrelevâncias comparadas", importante arte multidisciplinar.



Thursday, July 22, 2010

A brisa, o samurai e a Terra


E dizem que fumar faz mal à saúde. Sexta-feira, 16 de julho de 2010. 23h33. Saio para comprar pão francês e cigarro na padaria. E um chocolate. Ninguém é de ferro. Na volta, num desses bares de esquina pé sujo, uma banda toca “Samurai”. O rapaz no vocal sente o que está cantando, diz as palavras na medida certa. O groove está garantido, num baixista jovem como o cantor, movendo-se ao ritmo da música com o baterista.

Faltava teclado e sopros? Não importa, porque comparar é pura besteira. Ali, naquele momento, Djavan estava presente. E deveria estar sorrindo, ouvindo caras muito jovens vibrando da mesma forma. “Qual é o nome da banda”, pergunto para o senhor na porta, por traz de uma grade branca, igual a sua camisa, com um bloco na mão. “Brisa”, diz.

E merece o nome. Tem gente que vai dizer que parece muito romântico, muito bobinho. Mas quem não se rendeu à brisa do mar? Fechar os olhos e poder deixar fluir o som das ondas dentro do corpo, o cheiro e o vento em todo o lugar. E como não se molhar? Muita gente acha cafona, brega e pegajoso demais “Vento no litoral”, do Renato Russo. Já até tem lista na web com a chamada “música para fim de relacionamentos”! Que reducionismo!

Também não dá para dizer que "Samurai" é uma música "alegre". "De começo de relacionamentos." Nem sempre o texto é fiel ao significado. Depende do clima, do ritmo e de quem a faz e ouve. Para alguns, a brisa do mar precisa ser banida. Move o mercado de antiferrugens, lavagens de veículos extras, janelas e batentes resistentes. Quem mora no litoral, sabe como é difícil combatê-la.

Mas não questione o que vem do mar, mas o que vem de dentro. Da terra, jorra petróleo sem parar desde abril. Fumar pode sim fazer mal à saúde, mas o vício antecede a política. E há outros vícios, muito mais arraigados, os quais a Brisa do "Samurai" faz sua defesa.



“Aaaaiii
Quanto querer
Cabe em meu coração..

Aaaaaiii...
Me faz sofrer
Faz que me mata
E se não mata fere...

Vaaaaiii...
Sem me dizer
Na casa da paixão...

Saaaaii...
Quando bem quer
Traz uma praga
E me afaga a pele..

Crescei, luar
Prá iluminar as trevas
Fundas da paixão...

Eu quis lutar
Contra o poder do amor
Cai nos pés do vencedor
Para ser o serviçal
De um samurai
Mas eu tô tão feliz!
Dizem que o amor
Atrai...”

Thursday, December 10, 2009

Em defesa da experiência viva da música na escola


Imagine-se num cruzamento de madrugada, ouvindo ao fundo o pulsar distante dos motores de carros, abafados pelo silêncio da noite, entrecortados pelo som mais nítido do temporizador do farol da esquina. Depois, com esse ritmo, componha a sua própria música com o que precisa comunicar. É esse despertar da sensibilidade musical em crianças e adolescentes que tem sido o desafio da vida de Keith Swanwick, educador emérito do Instituto de Educação da Universidade de Londres, que esteve em São Paulo para participar do III Seminário da Associação Amigos do Projeto Guri, que de 19 a 21 de novembro reuniu cerca de 500 educadores para a discussão dos desafios dos projetos culturais. O Guri ensina gratuitamente música a 40 mil crianças e adolescentes do Estado.

Com base nas ideias de Piaget, ele desenvolveu a sua "Teoria Espiral do Desenvolvimento Musical" após estudar um grupo de alunos de escolas em Londres, dividindo a aprendizagem em quatro níveis relacionados tanto à idade do aluno quanto ao valor simbólico da música. Foi a partir dessa teoria que ele criou o método "Técnica, Execução, Composição, Literatura e Apreciação" (T.E.C.L.A), que foge ao sistema tradicional ao evitar a abordagem do aluno pelo ensino de um instrumento, pela leitura de partituras, que muitas vezes mais afastam do que aproximam as crianças da música. "A música está fechada em si mesma. O desafio do professor é fazer a aproximação. É evitar o uso dos rótulos", diz o educador, em entrevista à Agência Estado. "O trabalho do professor é evitar que a música se sedimente nas crianças como o concreto, o cimento, que se torne fixa."

Qual a importância da educação musical?
KEITH SWANWICK - Cada cultura tem a sua língua, e cada grupo, a sua música. Pode ser música religiosa ou de rituais. A música está em todo o lugar. A função da educação musical consiste em despertar a atenção das pessoas para essa música e trazê-la da origem do seu contexto para o primeiro plano. A música é muito importante não apenas pelo prazer em se ouvir, mas por permitir "insights" de sentimentos que não obteríamos de outra forma.

Como o professor pode estimular as crianças a desenvolverem a sua própria música? No Brasil, por exemplo, temos o samba. Seria essa a música que ajudaria no desenvolvimento, por ser parte direta da cultura do País?
SWANWICK - Há música em toda parte. Há música nas ruas, na mídia, na TV. Algumas são diretas, específicas, como o samba. Mas outras estão no "background", dentro de um contexto no qual não estamos prestando atenção. E o trabalho da educação musical é trazer a música desse pano de fundo, desse 'background', para o primeiro plano. E fazer isso é começar pelo tipo de música que o estudante já possui. Todos nós possuímos essa música. Localizá-la é muito importante para dar ao estudante a oportunidade de se expressar.

Como fazer isso?
SWANWICK - O que fazemos é a forma natural de se fazer música, evitando confinar o estudante à partitura. Isso pode causar um tipo de bloqueio e não é a melhor forma de abordagem. Eu apresento uma música e digo: 'trabalhem com esses sons em grupos. Não o reproduzam simplesmente, mas trabalhem com eles. Mude a velocidade, use a parte que quiser, joga o resto fora.' O aluno decide o que fazer. Ao dar a chance de construir música, eles podem trazer a música que já possuem em suas mentes. E ao aprender a compor estão aprendendo a se comunicar musicalmente. O professor é o facilitador desse processo.

Algumas escolas ainda obrigam os alunos a aprenderem um instrumento. Isso é correto?
SWANWICK - Na Inglaterra, nós temos uma nova política em que cada criança deve ter a oportunidade de tocar um instrumento. E isso é interpretado da forma mais rígida à mais flexível. A primeira é: toda criança toca flauta, o que é horrível. Em workshops que supervisionei uns trazem violino e trompete; outros, instrumentos simples. E eles misturaram os sons. E eu os estimulo a tocarem não com partitura, mas a partir de imagens. Por exemplo, uma imagem do fogo, seguido de uma floresta, e finalizando num céu com apenas uma nuvem. Cada uma dessas imagens tem uma estrutura e trabalhamos qual o som de cada uma e como fazer a transição entre elas.

Os professores no Brasil têm habilidade para desenvolver esse tipo de ensino?
SWANWICK - Claro que sim. Mas depende da bagagem do professor e do método. Porque o antigo é assim: você dá para a criança um instrumento, e a apresenta uma partitura, sem o estimular a crianças. É uma experiência terrível e a maioria odeia e desiste. Há várias formas de aproximar a criança da música e uma delas é não dar lições individuais. E eles aprendem uns com os outros. Se uma criança toca no tempo certo, outra também tocará. É mais fácil ela aprender com outra criança que com um adulto. Se ela vir seu amigo tocando, vai pensar 'porque eu não posso fazer isso se ele faz?' O grupo é parte importante do processo.

Em seu livro "Ensinando Música Musicalmente", o sr discute que, apesar de a música ter um contexto particular, referindo-se ao tempo e ao universo de quem a criou e por que classe ela é apreciada, há ainda um "contexto musical", no qual o indivíduo pode não conhecer a história de quem a compôs, ou não pertencer ao "grupo sonoro" que o aprecia, mas consegue percebê-la. Como fazer essa transcendência?
SWANWICK - Musica é uma atividade social. Certo! Música é criada em um contexto social. Certo! Mas música não é simplesmente determinada pela situação em que é feita. Se você pensa nesses termos, você não poderia apreciar música de outras culturas ou de outros séculos. A menos que o processo possua alguma autonomia, não completa, mas que se possa se libertar do contexto local.

Aí entra a educação? Porque, parece-me que a música se transformou em algo como o futebol, com uma função de catarse social...
SWANWICK - Você acha o mesmo numa discoteca. A anestesia do ruído e das luzes e das drogas e se esquece dos problemas.

É claro que, muitas vezes, é importante essa anestesia causa pela música...
SWANWICK - Sim, mas não dentro da escola! (risos) Não faria parte de um programa governamental.

Mas é que a música parece ter perdido um pouco sua capacidade de mudança, de reflexão.
SWANWICK - Hoje a música está fechada em si mesma. A dificuldade do professor é fazer a aproximação. E a minha não é dizer, 'vamos aprender a música de um famoso compositor alemão morto...' O que eu faço é um convite para tocarmos certos ritmos juntos. É evitar o uso dos rótulos culturais, mas focar no processo. O trabalho do professor é evitar que a música se sedimente nas crianças como o concreto, o cimento. Se torne fixa. Porque depois de uma certa idade, ficam fixas. O desafio é trabalhar para evitar isso.

Como você avalia o trabalho com música para crianças infratoras. Ajuda a reintegrá-las à sociedade?
SWANWICK - Não é 100%. Só podemos tentar. Muitos dos problemas dessas crianças é que elas não respeitam outras pessoas, porque também não se respeitam. E não se respeitam porque falharam por algum motivo. E buscam uma chance de obter sucesso. Música é uma possibilidade para algumas, não para todas, terem sucesso. Não no sentido de ficarem milionárias, mas se realizarem socialmente. A música é, simplesmente, uma das possibilidades.

(Roger Marzochi/AE – Foto de divulgação feita por Rodrigo Rubira, do Projeto Guri)