Curral eleitoral
O mais preocupante no escândalo envolvendo o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) vai muito além das incongruências de sua defesa sobre seus negócios com gado e a ânsia de seus fiéis seguidores em salvá-lo na Comissão de Ética. A sua obstinação em permanecer presidente do Senado e os afagos de seus pares, incluindo petistas, reforçam a certeza da impunidade e um tipo "privatização" da "coisa pública".
É como se o voto que o consagrou senador fosse um vale-tudo, um passe-livre que lhe permitisse, por um lado, agir nas sombras ao arrepio da lei e, de outro, deitar aos moucos ouvidos alheios os piores entre os piores mugidos demagógicos. "Não permitirei que levem o Senado a uma crise institucional. O Senado não vai participar dessa crise a que estão tentando levá-lo", disse o senador-boiadeiro na quinta-feira (21/06), de acordo com sua página na internet.
O mais crítico de toda essa situação é perceber que, ao que tudo indica, seu rebanho parece mais vasto que sugere sua contabilidade, que não passou nem pelo mata-burro da Polícia Federal. Ele alega ter 1,7 mil cabeças de gado. Mas José Renan Vasconcelos Calheiros foi eleito em 2002 pela coligação PMDB/PSDB, com 815.135 votos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Foram 815.135 cabeças que colocaram sua esperança em um homem que, esperava-se, deveria representar e defender o bem público.
E, mesmo após tantas denúncias e graves indícios, não se tem notícia de qualquer manifestação de seus eleitores. A passeata do Orgulho Gay reuniu em São Paulo cerca de 3 milhões de pessoas. Os estudantes ocupam reitorias de universidades defendendo a autonomia do ensino. E os eleitores de Renan? Não se manifestam? Não vão pular o cercado?
